A abertura da 15ª Conferência das Nações Unidas sobre Espécies Migratórias de Animais Silvestres, a COP15, ocorreu na manhã desta segunda-feira (23), em Campo Grande (MS), reunindo uma ampla diversidade de participantes. Representantes de governos, cientistas, organizações da sociedade civil e povos tradicionais participaram da cerimônia, que deu início às discussões sobre preservação da biodiversidade em escala global.
O encontro é voltado à implementação da Convenção sobre a Conservação das Espécies Migratórias de Animais Silvestres, tratado internacional que busca coordenar ações entre países para proteger espécies que atravessam fronteiras ao longo de seus ciclos de vida. Ao longo da semana, delegações devem analisar propostas, negociar compromissos e revisar estratégias de conservação.
Na abertura, a ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva, enfatizou a importância da cooperação internacional. Em seu discurso, ela destacou que o diálogo entre os países pode gerar avanços concretos na proteção das espécies e no enfrentamento de desafios ambientais globais.
“Nos próximos dias, teremos a oportunidade de lançar uma mensagem clara ao mundo: se trabalharmos juntos, é possível conciliar desenvolvimento e conservação; é possível gerar riqueza sem destruir o patrimônio natural que nos sustenta, promovendo assim um novo ciclo de prosperidade”, afirmou.
A fala reforça a tentativa de alinhar preservação ambiental com crescimento econômico, um dos pontos centrais das negociações. A integração entre políticas ambientais e desenvolvimento sustentável aparece como eixo das discussões, ao lado de temas como conectividade ecológica e mudanças climáticas.
Relatório aponta avanço de ameaças
A secretária-executiva da convenção, Amy Fraenkel, trouxe à tona dados considerados preocupantes sobre o estado das espécies migratórias. Segundo o relatório mais recente, apresentado na edição anterior da conferência, 49% das espécies protegidas pelo acordo internacional apresentam tendência de declínio populacional.
O número reforça a urgência de medidas mais efetivas e coordenadas entre os países. Ao mesmo tempo, Fraenkel destacou exemplos de recuperação, como o caso da tartaruga-verde, que apresentou melhora graças a políticas de proteção e à criação de áreas conservadas com gestão mais eficiente.
A avaliação é de que experiências bem-sucedidas podem servir de modelo, desde que ampliadas e adaptadas a diferentes contextos. A conferência deve discutir formas de replicar essas iniciativas em maior escala.
Território e cultura entram no debate
A programação da abertura incluiu manifestações culturais de povos tradicionais, trazendo uma dimensão social ao encontro. Integrantes do povo Terena apresentaram a Dança da Ema, expressão cultural associada à espiritualidade e à resistência indígena na região.
Representando comunidades quilombolas, Adriana da Silva Soares destacou a relação entre território, identidade e conservação ambiental. Em sua fala, ela chamou atenção para a vulnerabilidade dessas populações diante da falta de reconhecimento de seus direitos.
“Sem esse reconhecimento, nossas comunidades seguem vulneráveis, ameaçadas e invisibilizadas. Com o território tradicional ameaçado, não é apenas o povo que sofre, é todo o bioma que entra em risco”, declarou.
A participação desses grupos amplia o debate ao incluir a perspectiva de quem vive diretamente nos territórios mais sensíveis do ponto de vista ambiental. A proteção dessas áreas, segundo especialistas, está diretamente ligada à manutenção da biodiversidade.
Ciência reforça urgência de ação conjunta
A bióloga Tatiana Neves, fundadora do Projeto Albatroz, também discursou durante a cerimônia. Ela destacou a importância da cooperação internacional, comparando o comportamento das espécies migratórias à necessidade de articulação entre países.
“Se hoje os albatrozes perguntassem para mim, o que vejo olhando para esta sala, eu responderia sem hesitar: esperança! Esperança na força das pessoas aqui reunidas e na nossa capacidade de agir, na vida que atravessa oceanos e nos lembra todos os dias que a natureza não tem fronteiras”, afirmou.
A presença de especialistas reforça o caráter técnico das discussões, que devem se basear em dados científicos para orientar decisões políticas. A expectativa é que a conferência avance em compromissos concretos de preservação.
Agenda é aprovada e trabalhos começam
Após a abertura, o secretário-executivo do Ministério do Meio Ambiente, João Paulo Capobianco, foi eleito presidente da COP15 por unanimidade. Na sequência, os países participantes aprovaram a agenda do evento, que reúne mais de 100 itens para debate ao longo dos próximos dias.
“Todos os itens foram aprovados, considerados necessários, todos os países se manifestaram favoravelmente, portanto iniciamos a COP15 de uma forma muito positiva”, disse Capobianco.
Com a agenda definida, a conferência entra agora na fase de negociações. As reuniões incluem sessões plenárias e encontros paralelos, nos quais serão discutidas medidas para ampliar a proteção das espécies migratórias e fortalecer a cooperação internacional.
O encontro segue até o dia 29, com expectativa de consolidar acordos que orientem políticas ambientais nos próximos anos.
Fonte: Agência Brasil
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