Segundo dados do IBGE, cerca de 40% das crianças e adolescentes brasileiros vivem em domicílios com algum grau de privação, considerando fatores como acesso à educação, renda, saneamento e moradia. Já o UNICEF destaca que a exclusão educacional continua sendo um dos principais fatores associados à perpetuação das desigualdades sociais, especialmente entre jovens das periferias urbanas.
As organizações do terceiro setor possuem uma participação importante nesse cenário e, cada vez mais, estão apostando na combinação entre educação, arte e desenvolvimento de competências para ampliar as perspectivas de futuro.
Para a filantropa Ana Carolina Borges Torrealba Affonso, fundadora da Casa Arte Vida (CAV), organização criada em 2007 na região de Pedra de Guaratiba, zona oeste do Rio de Janeiro, esse potencial transformador aparece quando a arte deixa de ser uma atividade isolada e passa a fazer parte do cotidiano dos estudantes.
“A arte muda a forma como a criança enxerga a si mesma. Muitas chegam acreditando que existem espaços onde elas simplesmente não pertencem. Quando começam a criar, apresentar um trabalho ou desenvolver um projeto, descobrem que têm capacidade de aprender, de construir e de ocupar esses lugares. Isso muda a relação delas com a escola, com a família e com o próprio futuro.”
Com formação em Direito, trajetória na hotelaria e especialização em História da Arte, Ana Carolina desenvolveu o projeto da Casa Arte Vida voltado à educação complementar de crianças e adolescentes de baixa renda, utilizando metodologias como STEAM, aprendizagem baseada em projetos e atividades culturais como ferramentas de desenvolvimento.
Arte como ferramenta de desenvolvimento
Embora frequentemente associada apenas ao entretenimento ou à expressão cultural, a arte também tem sido estudada por seus impactos no desenvolvimento cognitivo, emocional e social.
Um levantamento da UNESCO aponta que a participação em atividades artísticas favorece habilidades como criatividade, resolução de problemas, comunicação, colaboração e pensamento crítico, competências consideradas essenciais para a formação dos jovens no século XXI.
Educação além da sala de aula
A ampliação da jornada educativa tem sido apontada como um dos caminhos para reduzir desigualdades de aprendizagem. O relatório Education at a Glance, da OCDE, destaca que experiências extracurriculares de qualidade contribuem para o desenvolvimento de competências socioemocionais e podem reduzir diferenças de desempenho entre estudantes de diferentes contextos socioeconômicos.
Na avaliação de Ana Carolina, iniciativas sociais conseguem complementar o trabalho realizado pelas escolas justamente por oferecerem experiências que muitas vezes não fazem parte da rotina das comunidades atendidas.
“A escola tem um papel fundamental, mas ela não consegue resolver tudo sozinha. Quando a criança encontra um ambiente onde pode experimentar, errar, criar e trabalhar em equipe, ela desenvolve confiança para enfrentar outros desafios. O aprendizado deixa de ser uma obrigação e passa a fazer sentido na vida dela.”
Essa proposta orienta projetos desenvolvidos pela Casa Arte Vida, como o Maker Lab, o Expresso do Futuro, o CRIA e o Bazar do Bem, que combinam atividades educacionais, culturais e de fortalecimento dos vínculos comunitários.
O papel da comunidade na transformação social
Especialistas em educação defendem que programas sociais apresentam resultados mais consistentes quando envolvem famílias e comunidades no processo de aprendizagem. Estudos publicados pela UNESCO mostram que o engajamento familiar contribui para reduzir a evasão escolar, melhorar o desempenho acadêmico e fortalecer o desenvolvimento socioemocional dos estudantes.
Segundo Ana Carolina, essa integração faz diferença porque amplia o impacto das ações para além dos alunos atendidos.
“Quando uma criança descobre novas possibilidades, ela leva isso para dentro de casa. Os pais passam a acompanhar mais de perto, os irmãos se interessam e a comunidade começa a enxergar valor naquele processo. A transformação dificilmente acontece de forma individual; ela costuma envolver muitas pessoas ao mesmo tempo.”
Reconhecida por cinco anos consecutivos entre as 100 Melhores ONGs do Brasil, a Casa Arte Vida consolidou sua atuação com uma metodologia voltada à autonomia, à participação das famílias e à construção de oportunidades por meio da educação e da cultura.
Para Ana Carolina, reduzir desigualdades exige políticas públicas consistentes, mas também iniciativas capazes de atuar diretamente nas comunidades.
“Não existe uma solução única para um problema tão complexo. Mas toda vez que conseguimos ampliar o acesso ao conhecimento, à cultura e às oportunidades, estamos reduzindo uma parte dessa distância. É um trabalho contínuo, feito de pequenas conquistas que, somadas, mudam trajetórias.“
Sobre Ana Carolina Borges Torrealba Affonso
Ana Carolina Borges Torrealba Affonso é filantropa, formada em Direito pela Faculdade Candido Mendes, com atuação nas áreas jurídica, hoteleira, artística e social. Em 2007 fundou a Casa Arte Vida (CAV), organização dedicada à educação de crianças e adolescentes de baixa renda na zona oeste do Rio de Janeiro. Atualmente reside em Cascais, Portugal, onde também desenvolve trabalhos artísticos em cerâmica e pintura em azulejos.
