Os desfiles das escolas de samba do Rio de Janeiro passaram a integrar, oficialmente, o conjunto de bens reconhecidos como Patrimônio Cultural do Estado do Rio de Janeiro. A medida entrou em vigor a partir de decreto assinado pelo governador Cláudio Castro e publicado no Diário Oficial, consolidando o carnaval carioca como expressão central da identidade cultural fluminense e como vetor permanente de desenvolvimento econômico.
O reconhecimento estadual ocorre em meio à análise, no âmbito federal, do pedido de registro dos desfiles realizados na Marquês de Sapucaí como Patrimônio Cultural do Brasil. A solicitação foi protocolada em 29 de agosto deste ano junto ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, o Iphan, pela diretora cultural da Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro, Evelyn Bastos. O documento foi entregue ao presidente do instituto, Leandro Grass, e ao diretor do Departamento de Patrimônio Imaterial, Deyvesson Gusmão.
Tramitação no âmbito federal
Em nota oficial, o Iphan confirmou o recebimento do pedido e esclareceu que o processo federal segue rito próprio, independente das iniciativas adotadas por estados e municípios. Segundo o instituto, “apesar de a política de preservação do patrimônio cultural operada em nível federal ser uma referência para construção de políticas patrimoniais para diversos estados, municípios ou Distrito Federal, essas esferas de governança têm instrumentos e processos próprios para o reconhecimento patrimonial em suas localidades, o que não se confunde com o reconhecimento nacional, que atribui o título de Patrimônio Cultural do Brasil. Nesse sentido, o processo no Iphan segue rito próprio, independente das iniciativas de reconhecimento dos estados e municípios”.
No âmbito do Iphan, o pedido de registro representa apenas a etapa inicial. A tramitação envolve análise técnica da documentação apresentada, avaliação da pertinência pela Câmara Setorial competente e, posteriormente, instrução técnica com pesquisas especializadas, incluindo estudos de caráter etnográfico. Concluída essa fase, o processo é submetido ao Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural, instância responsável por decidir sobre o eventual reconhecimento nacional.
De acordo com o instituto, o pleito relacionado aos desfiles das escolas de samba do Rio “vai ao encontro da importância cultural e histórica do carnaval carioca para o Brasil, fato também já reconhecido pelo Iphan em outras oportunidades”.
Reconhecimentos já existentes
O carnaval do Rio de Janeiro já conta com registros relevantes no campo do patrimônio cultural brasileiro. O Sambódromo da Marquês de Sapucaí, projetado pelo arquiteto Oscar Niemeyer, é tombado em nível federal desde 2021. Além disso, as Matrizes do Samba no Rio de Janeiro, que englobam o partido alto, o samba de terreiro e o samba-enredo, são reconhecidas como Patrimônio Cultural do Brasil desde 2007.
Esses registros reforçam a centralidade do samba e do desfile das escolas na construção da identidade cultural brasileira, especialmente no contexto urbano do Rio de Janeiro, onde a manifestação se consolidou ao longo do século XX.
Vozes do samba
Entre os sambistas, a decisão do governo fluminense foi recebida como um avanço simbólico e institucional. Intérprete consagrado e colecionador de títulos no carnaval, Paulinho Mocidade avaliou de forma positiva o reconhecimento estadual.
“Porque o carnaval do Rio vai daqui para todo o Brasil, e, do Brasil, para todo o mundo. Isso faz com que o sambista adquira, acima de tudo, respeito”.
Ao relembrar o passado, Paulinho destacou o histórico de preconceito enfrentado por artistas do samba nas primeiras décadas do século passado. “O preconceito era gigantesco. O cara entrava em cana. A situação era delicadíssima. Hoje, o sambista é referência. Então, eu aplaudo essa medida, que foi muito acertada”, afirmou em entrevista à Rádio Nacional.
Proteção e política pública
Com o decreto estadual, os desfiles passam a integrar formalmente o rol de bens culturais protegidos pelo Rio de Janeiro. A medida garante respaldo institucional às escolas de samba, aos profissionais envolvidos e a toda a cadeia produtiva que sustenta o espetáculo, desde os barracões até os setores de turismo, serviços e economia criativa.
Segundo o governo do estado, o reconhecimento amplia as possibilidades de ações de fomento, preservação da memória e apoio continuado às agremiações. Também fortalece a base legal para investimentos públicos, parcerias institucionais e políticas de valorização profissional, além de contribuir para a preservação dos saberes tradicionais do samba.
Impacto econômico do carnaval
Os números reforçam o peso do carnaval para a economia fluminense. Em 2025, o governo do Rio de Janeiro investiu R$ 90 milhões na realização da festa. O impacto econômico estimado durante o período foi de R$ 6,5 bilhões.
De acordo com dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados, do Ministério do Trabalho e Emprego, cerca de 70 mil empregos foram gerados no período carnavalesco. Além disso, mais de 2,1 mil novos empreendimentos com ligação direta ou indireta às festividades foram criados.
As vagas temporárias relacionadas ao carnaval cresceram 8,6% no estado em 2025, conforme levantamento da Divisão de Economia e Inovação da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo, confirmando o evento como ativo estratégico não apenas cultural, mas também econômico para o Rio de Janeiro.
Fonte: Agência Brasil
Foto: https://br.freepik.com/fotos-premium/esta-noite-estava-dancando-com-as-estrelas-foto-de-sambistas-se-apresentando-em-um-carnaval_27608397.htm
