Início Cultura Festa jamaicana, conhecida como Jamaiquintas, é popularizada em Curitiba (PR)

Festa jamaicana, conhecida como Jamaiquintas, é popularizada em Curitiba (PR)

por Plataforma dos Municípios
Festa jamaicana, conhecida como Jamaiquintas, é popularizada em Curitiba (PR)

Todas as quintas-feiras em Curitiba (PR) carregam um sotaque jamaicano, pois desde 2009 acontecem as Jamaiquintas, festa idealizada pelo DJ Caê Traven, conhecido como Uhuru Selector, transformou-se em um ponto de encontro para quem busca vivenciar de perto a cultura do reggae, do dub e do sound system. O evento, que nasceu como uma proposta de resistência cultural, consolidou-se como espaço de promoção das vertentes musicais jamaicanas e das manifestações que delas derivam.

A Jamaiquintas acontece semanalmente a partir das 19h no Basement Cultural, localizado na Rua Desembargador Benvindo Valente, 260, no bairro São Francisco, região boêmia da capital. O local, marcado por uma filosofia de trabalho voltada ao ambiente colaborativo e ao espírito “faça você mesmo”, tornou-se a casa ideal para as emblemáticas paredes de som que embalam as noites de quinta. Ali, o público transita entre sets de seletores, apresentações ao vivo e encontros que envolvem artistas locais e convidados de fora.

Além da música, o evento abriga uma rede de pequenos empreendedores que encontram no espaço uma vitrine constante para seus produtos e serviços. Marcas da capital, da Região Metropolitana e até de outros estados participam regularmente das edições. “A economia solidária aqui é real. Temos desde uma marca de roupas de Joinville, cujo proprietário vem toda quinta-feira, até uma lojinha de sedas, uma massagista e outros. São nossos apoiadores de presença, que também auxiliam na divulgação. Para todos nós, o mais importante hoje é manter essa rede fortalecida”, afirma Uhuru.

A força do sound system e a circulação de artistas

No centro da proposta da Jamaiquintas está a cultura do sound system, expressão surgida na Jamaica nos anos 1940 e impulsionada por pioneiros como Duke Reid e Coxsone Dodd. O formato reúne o selector, responsável pela curadoria musical, e o MC, que conduz a interação com o público. Dessa combinação nasceram vertentes como o dub, que mais tarde se tornaria uma influência essencial para a música eletrônica contemporânea.

Em Curitiba, a festa surgiu justamente com a missão de difundir esse universo e estabelecer pontes entre artistas locais e produtores de outras regiões. Antes de fixar o endereço no Basement Cultural, o evento passou por diferentes bares da cidade e chegou a ter edições fora do estado e até no exterior, mantendo sempre o caráter itinerante e colaborativo que marcou sua trajetória inicial.

Ao longo dos anos, o palco da Jamaiquintas recebeu nomes de destaque da cultura sound system. Entre eles, o coletivo carioca Digital Dubs, os paulistas Arcanjo Ras e Pump Killa, além da cantora Soom T, vinda diretamente do Reino Unido. O evento também contribuiu para revelar e fortalecer artistas curitibanos que hoje circulam por outras cenas e festivais. Entre esses nomes estão Malutronn, Osas Destiny e a banda Rocksteady City Firm, que realizou na Jamaiquintas uma de suas primeiras apresentações, ainda em 2009.

A trajetória de Uhuru e a consolidação de uma cena

A história da festa é diretamente ligada à caminhada de seu idealizador. Natural de Foz do Iguaçu, Uhuru começou a se aproximar da música nos anos 1990, período em que trabalhava em uma videolocadora na cidade natal. O contato com diferentes trilhas sonoras e, posteriormente, intercâmbios por cidades brasileiras e de outros países, contribuíram para aprofundar sua pesquisa sobre reggae e suas ramificações. Ao retornar ao Paraná, decidiu investir em um projeto que promovesse o gênero e aproximasse o público da mensagem que considera central: “O reggae não é só paz e amor, é muito sobre luta e resistência. É uma mensagem de valorização do povo preto, da diáspora africana”, afirma.

A escolha da quinta-feira como dia fixo do encontro foi inspirada por uma brincadeira de um amigo argentino do organizador, que mora no Paraguai e se referia às sessões musicais de reggae como “Jamaiquintas” — junção de “Jamaica” com “quintas”. A coincidência entre o trocadilho e a estratégia de programação acabou definindo o nome oficial da festa. Segundo Uhuru, evitar a concorrência direta com eventos de sexta e sábado ajudou o projeto a ganhar um nicho próprio. “Se a gente fizesse na sexta ou no sábado, cairia na concorrência com todos os outros tipos de festa. O Rock, por exemplo, tem uma aceitação imediata. Já ao partir para o Samba, o Pagode, o Rap ou o Trap, o cenário é diferente”, explica.

Mesmo assim, a proposta da Jamaiquintas ocupa o que o organizador descreve como “o underground do underground”. Apesar de o reggae ser amplamente apreciado por públicos variados, a presença física nos eventos nem sempre acompanha a popularidade do gênero. “É um ambiente onde todo mundo se sente confortável. Os mesmos fãs de Rock que citei gostam de Reggae e até escutam, mas não frequentam o nosso espaço. Essa desconexão entre a apreciação e a frequência é uma realidade com a qual lidamos”, observa.

O desafio, para Uhuru, está justamente em manter viva uma cena que convive com oscilações de público, mas que se sustenta pela força da comunidade envolvida. A combinação entre música, economia solidária e intercâmbio artístico transformou a Jamaiquintas em uma instituição cultural curitibana, que ultrapassou a condição de festa e se firmou como ponto de resistência e celebração das raízes jamaicanas na cidade.

Com 16 anos de história e programação contínua, o evento segue fortalecendo vínculos e apresentando novas gerações ao universo do reggae, do dub e do sound system — mantendo viva, a cada quinta-feira, uma tradição que se renova em comunidade.

Serviço

Jamaiquintas @originaljamaiquintas

Onde: Basement Cultural  – Rua Desembargador Benvindo Valente, 260. São Francisco. Curitiba.

Quando: Todas as quintas-feiras  

Horário: A partir das 19h

Fonte: Plural
Foto: https://br.freepik.com/imagem-ia-gratis/retrato-fotorrealista-de-uma-mulher-rastafari-africana-com-dreads_204367788.htm

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