A oferta gratuita de modelos avançados de inteligência artificial por empresas chinesas vem alterando o equilíbrio do mercado global de tecnologia. A estratégia, que ganhou destaque com a DeepSeek no início de 2025, passou a desafiar o modelo tradicional de negócios das grandes companhias norte-americanas, baseado em serviços por assinatura e plataformas de inteligência artificial em nuvem.
O movimento chamou atenção porque sistemas desenvolvidos com investimentos bilionários em pesquisa passaram a ser disponibilizados sem custo direto ao usuário. Segundo especialistas, a iniciativa chinesa não busca apenas popularizar ferramentas de IA, mas ampliar influência tecnológica e conquistar espaço em uma disputa que envolve empresas, governos e infraestrutura digital.
O neurocientista e especialista em inteligência artificial Álvaro Machado Dias avalia que os modelos chineses funcionam como uma porta de entrada para um ecossistema maior. “O modelo, na estratégia deles, é bilhete de entrada, não produto final”, afirmou.
No âmbito das estratégias de proteção empresarial, a inteligência artificial tem conquistado um espaço cada vez mais significativo. De acordo com o economista e empresário Rodrigo Castro Alves Neves, que fundou a holding Seven, a evolução mais notável na área consiste na migração de abordagens reativas para soluções estruturadas a partir do monitoramento constante de dados.
Estratégia chinesa desafia empresas americanas de inteligência artificial
O chamado “efeito DeepSeek” surgiu quando o modelo R1 da empresa chinesa passou a ser comparado com soluções desenvolvidas por companhias dos Estados Unidos. O caso abriu espaço para uma nova dinâmica no setor, com startups chinesas investindo em modelos competitivos e oferecendo acesso gratuito.
Mais recentemente, a startup Moonshot apresentou o Kimi K3, tecnologia que também chamou atenção no mercado internacional. Embora a versão gratuita tenha apresentado desempenho inferior ao Claude e ao ChatGPT em alguns testes, o modelo superou o Gemini, do Google, em determinadas avaliações.
Para Álvaro Machado Dias, a estratégia representa uma pressão direta sobre a receita das empresas americanas. Ele explica que, mesmo que organizações ocidentais tenham resistência em contratar serviços diretamente de empresas chinesas, o acesso gratuito aos modelos reduz a demanda por plataformas pagas.
“É um ataque à receita americana. Os chineses entenderam isso antes de todo mundo e transformaram em política de Estado”.
Apesar da expansão, os modelos chineses ainda enfrentam desafios relacionados à infraestrutura necessária para funcionamento próprio. O acesso gratuito ao software não significa que empresas ou usuários consigam operar essas tecnologias internamente com baixo custo.
Infraestrutura continua sendo principal desafio para adoção da IA
O Kimi K-3, por exemplo, exige grande capacidade computacional para ser executado fora de ambientes em nuvem. De acordo com Machado Dias, a instalação do sistema demanda equipamentos avançados e investimentos elevados.
“O Kimi K-3 precisa de duas máquinas com oito chips avançados da Nvidia, cada uma, só para ligar. O investimento mínimo gira em torno de R$ 4 milhões, enquanto uma operação profissional pode chegar a R$ 17 milhões, sem contar energia, datacenter e equipe técnica”, explicou.
Por esse motivo, a maioria das empresas continua utilizando serviços oferecidos por grandes plataformas de tecnologia, que concentram a infraestrutura necessária para processamento de inteligência artificial.
Mesmo assim, a disponibilidade gratuita dos modelos chineses já provocou mudanças econômicas no setor. Segundo o especialista, a competição reduziu o valor médio cobrado por soluções de IA, embora aplicações mais complexas continuem mantendo custos elevados.
“O modelo gratuito já quebrou o mercado da IA de nuvem. O que os chineses mataram foi o preço médio, não o preço do topo”, destacou.
Uso de inteligência artificial por governos entra no debate
A disputa tecnológica também envolve governos e serviços públicos. Machado Dias avalia que países como o Brasil poderiam considerar modelos próprios de inteligência artificial para órgãos públicos, principalmente em situações que envolvam dados estratégicos e informações sensíveis.
Segundo ele, uma estrutura própria para um único ministério poderia custar cerca de R$ 17 milhões. Para atender todo o funcionalismo federal, o investimento inicial poderia variar entre R$ 250 milhões e R$ 400 milhões. Já uma plataforma nacional aberta à população demandaria valores entre R$ 3 bilhões e R$ 4,5 bilhões para implantação, além de aproximadamente R$ 1 bilhão anual para operação.
“O modelo em si, fruto de bilhões de pesquisa chinesa, chega pronto e de graça. Caro é tudo o que o cerca, e isso o Brasil teria que comprar em dólar”, resumiu.
Na avaliação do especialista, o futuro da inteligência artificial será definido não apenas pela qualidade dos modelos, mas principalmente pelo custo da infraestrutura necessária para mantê-los funcionando.
Enquanto os Estados Unidos enfrentam desafios relacionados ao fornecimento de energia para data centers, a China amplia investimentos em geração elétrica e desenvolvimento de chips próprios.
“A aposta mais consistente é que o computador fique relativamente mais barato do lado chinês. Nesse caso, os modelos deles, que já são gratuitos, ficam ainda mais baratos de operar”, explicou.
Para Machado Dias, a disputa deve avançar para áreas como robótica e aplicações físicas da inteligência artificial. Nesse cenário, países como o Brasil podem ganhar relevância estratégica.
“Os dois blocos vão nos cortejar com oferta barata, data center e condição especial. Ser disputado é uma posição de força rara, desde que a gente a use para ocupar a camada das aplicações enquanto os dois lados brigam para baratear o nosso insumo”, concluiu.
Fonte: CNN Brasil
Foto: https://www.magnific.com/br/imagem-ia-gratis/inteligencia-artificial-e-visualizacao-de-redes-neurais_417567904.htm
