O mercado imobiliário brasileiro ampliou sua presença no mercado de capitais nos últimos anos. Entre dezembro de 2024 e setembro de 2025, o volume financeiro do setor alcançou R$ 697 bilhões, com crescimento de 7,5%. Em meio à expansão, temas como governança corporativa, previsibilidade financeira e tratamento estratégico de dados passaram a ocupar papel central nas decisões nos projetos imobiliários.
Em um ambiente marcado por oscilações econômicas, juros elevados e maior cobrança por transparência, a organização das informações financeiras tornou-se um diferencial competitivo. “Mais do que atender exigências regulatórias, a governança vem sendo tratada como uma estrutura capaz de reduzir riscos, melhorar a gestão dos recursos e criar condições mais sólidas para o crescimento das empresas”, afirma Luciano Mestrich Motta.
Luciano Mestrich Motta é CEO da Monitori e economista formado pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, que atua há mais de duas décadas nos setores financeiro e imobiliário. Antes de assumir a liderança da Monitori, passou por consultorias como Arthur Andersen e Deloitte, além de ocupar cargos de direção em empresas de investimentos e family office com mais de R$ 4 bilhões em ativos.
“As empresas que crescem sem processos estruturados costumam enfrentar dificuldades justamente nos momentos de expansão”, destacou o CEO.
Governança vai além do controle financeiro
Segundo Luciano Mestrich Motta, dentro do setor imobiliário, governança não se limita à produção de relatórios ou auditorias periódicas. “O conceito envolve a criação de processos claros, integração de informações e acompanhamento constante da operação financeira”.
“Na prática, isso significa ter visibilidade sobre fluxo de caixa, inadimplência, recebíveis e desempenho dos empreendimentos. Sem esse controle, decisões estratégicas acabam sendo tomadas com baixa previsibilidade, aumentando o risco operacional”, completa Luciano Mestrich Motta.
O CEO da Monitori explica que a ausência de informações confiáveis também afeta diretamente a relação com investidores e instituições financeiras. “Em um mercado que depende de crédito e captação de recursos para expansão, a falta de transparência pode limitar o acesso a financiamentos e dificultar novos investimentos”.
O avanço dos pedidos de recuperação judicial no setor reforça esse cenário. Levantamento do Monitor RGF aponta que apenas em 2024 houve 314 pedidos de recuperação judicial ligados à incorporação imobiliária. De acordo com Luciano Mestrich Motta, o dado evidencia fragilidades na gestão de risco e no controle financeiro de parte das empresas.
“Nesse contexto, a governança passa a funcionar como uma ferramenta de proteção e credibilidade. Para o mercado de capitais, não basta apenas afirmar que os processos estão corretos. É necessário demonstrar, por meio de monitoramento técnico e validação independente, que a aplicação dos recursos, as garantias e a execução dos projetos seguem o planejamento previsto”, afirma Luciano Mestrich Motta.
Luciano Mestrich Motta também aponta para outro ponto importante: a conexão entre os sistemas de gestão e a realidade operacional dos empreendimentos. “Quando os dados financeiros não refletem o andamento físico dos projetos, surgem distorções que comprometem análises e tomadas de decisão”.
Previsibilidade reduz riscos no crescimento
A previsibilidade financeira também aparece como um dos pilares da sustentabilidade nos projetos imobiliários, de acordo com Luciano Mestrich Motta. “Empresas com estruturas organizadas conseguem antecipar cenários, calcular impactos e definir com mais segurança o ritmo de expansão”.
Para Luciano Mestrich Motta isso se torna ainda mais relevante em períodos de instabilidade econômica ou juros elevados, quando erros de planejamento podem comprometer o caixa por longos períodos. “O planejamento financeiro ganha capacidade de indicar até onde a empresa pode investir, quando lançar novos produtos e quais riscos precisam ser mitigados antes de uma expansão”.
“A previsibilidade também melhora a comunicação com investidores, parceiros e instituições financeiras. Quanto maior a clareza sobre receitas, custos e cronogramas, maior tende a ser a confiança do mercado na capacidade de execução da empresa”, destacou Luciano Mestrich Motta.
Inteligência de dados influencia decisões imobiliárias
Além da governança e previsibilidade, o uso estratégico de dados passou a influenciar diretamente o desenvolvimento dos projetos imobiliários. Escolher localização, tipologia e posicionamento comercial exige hoje um volume maior de informações para reduzir riscos e aumentar a assertividade dos empreendimentos.
Na visão de Luciano Mestrich Motta, atualmente com o acesso a dados organizados e projeções consistentes, as decisões deixam de depender apenas da percepção dos gestores e passam a ser sustentadas por indicadores concretos. “Embora esse conhecimento continue relevante, o atual ambiente econômico exige análises mais aprofundadas e cruzamento constante de indicadores”.
Dados sobre oferta, demanda, renda, crescimento populacional e comportamento do consumidor ajudam a validar estratégias e identificar tendências regionais. “Em muitos casos, essas informações também evitam investimentos em projetos com baixa aderência ao mercado local”.
Entre as principais fontes utilizadas pelo setor estão bases públicas e privadas como IBGE, CAGED, RAIS, CVM, PAIC e CBIC, além de pesquisas regionais e indicadores específicos do mercado imobiliário.
“O Índice de Demanda Imobiliária (IDI), por exemplo, auxilia na identificação da procura efetiva por imóveis em diferentes regiões e segmentos. Já indicadores ligados à construção civil permitem acompanhar custos de materiais, ritmo de lançamentos, estoque disponível e movimentação econômica”, afirma.
Ainda segundo Luciano Mestrich, o principal desafio não está apenas na coleta das informações, mas na capacidade de integrar diferentes bases para gerar análises úteis ao negócio. “Dados isolados têm valor limitado. Quando organizados de forma estratégica, ajudam empresas a reduzir incertezas, aumentar eficiência operacional e tomar decisões mais alinhadas à realidade do mercado imobiliário brasileiro”, concluiu.
