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Marcas tradicionais recorrem à recuperação judicial em meio a juros altos e crédito restrito

por Plataforma dos Municípios
Marcas tradicionais recorrem à recuperação judicial em meio a juros altos e crédito restrito

A sequência de pedidos de recuperação judicial feitos por empresas conhecidas do consumidor brasileiro acendeu um alerta sobre o ambiente econômico enfrentado pelo setor produtivo. Nos últimos meses, companhias tradicionais como Estrela, Bombril, Tok&Stok e Coteminas recorreram à Justiça para tentar reorganizar dívidas e preservar suas operações.

Embora atuem em setores distintos, os casos compartilham elementos semelhantes. O aumento dos juros nos últimos anos, a maior dificuldade de acesso ao crédito e a desaceleração do consumo reduziram a capacidade financeira de empresas que já enfrentavam desafios estruturais.

O caso da Estrela ganhou repercussão pelo peso histórico da marca no mercado brasileiro. A fabricante de brinquedos, responsável por produtos que atravessaram gerações, como Banco Imobiliário, Autorama e Detetive, atribuiu a crise ao aumento do custo do capital, à restrição de crédito e às mudanças no comportamento do consumidor, cada vez mais direcionado ao entretenimento digital.

O movimento, porém, está longe de ser isolado. Dados da Serasa Experian mostram que 2025 registrou 977 pedidos de recuperação judicial no país, alta de 5,5% em relação ao ano anterior e o maior volume desde 2016. Considerando o total de empresas envolvidas, foram 2.466 CNPJs atingidos, crescimento de 13% e recorde da série histórica.

O cenário reflete um ambiente econômico mais duro para companhias dependentes de crédito. Durante anos, muitas empresas se financiaram em um período de juros baixos e liquidez elevada. Com a escalada da Selic para conter a inflação, o custo das dívidas aumentou rapidamente.

Ao mesmo tempo, bancos passaram a operar com critérios mais rígidos na concessão de crédito. Do lado do consumidor, o encarecimento das parcelas reduziu a capacidade de compra das famílias, afetando principalmente segmentos ligados ao varejo e ao consumo discricionário.

Segundo o economista Paulo Narcélio Simões Amaral, com mais de trinta anos de experiência em reestruturação empresarial, fusões e aquisições e finanças corporativas, a pressão sobre o custo de capital afeta diretamente a saúde financeira das empresas.

Pressão financeira expõe fragilidades

Os fatores que levam uma companhia à recuperação judicial variam de caso para caso. Problemas de gestão, mudanças tecnológicas, perda de competitividade, passivos tributários e disputas societárias aparecem com frequência nos processos recentes.

Ainda assim, especialistas avaliam que o ambiente macroeconômico ampliou dificuldades que já vinham se acumulando internamente.

A situação da Tok&Stok ilustra esse processo. Após a pandemia, a companhia ampliou investimentos e elevou seu endividamento apostando na continuidade do consumo aquecido e do crédito barato. O cenário mudou rapidamente com a alta dos juros e a desaceleração da demanda.

Além da retração no varejo de móveis e decoração, a empresa passou a enfrentar concorrência crescente de plataformas digitais e novos modelos de negócios. O resultado foi o fechamento de lojas, necessidade de aportes de capital e aumento das dificuldades financeiras.

Neste ano, a companhia apresentou pedido de recuperação judicial envolvendo dívidas superiores a R$ 1,1 bilhão. A empresa relacionou a crise ao impacto dos juros elevados, ao maior endividamento das famílias, à restrição de crédito e ao enfraquecimento do consumo.

A Coteminas também atravessa um processo de reorganização financeira. O grupo têxtil, controlado pelo empresário Josué Gomes, teve homologado recentemente seu plano de recuperação judicial para reestruturar um passivo próximo de R$ 2 bilhões.

Dona de marcas como MMartan, Artex, Santista e Casa Moysés, a empresa enfrenta dificuldades em um setor pressionado há anos pela concorrência internacional e pela redução das margens da indústria nacional.

Já a Bombril convive com um quadro marcado por disputas tributárias bilionárias e pressão sobre sua estrutura de capital, demonstrando que as causas das crises podem ser diferentes, mesmo em um ambiente econômico adverso.

Recuperação judicial não encerra a crise

Para especialistas, a recuperação judicial representa mais uma tentativa de reorganização do que uma solução definitiva para os problemas financeiros.

“O pedido de recuperação judicial da Estrela expõe a dificuldade de sustentar um modelo de negócio industrial e de consumo em um ambiente de capital mais caro, crédito restrito e mudanças aceleradas de mercado”, afirma Andréa Navarro, especialista em recuperação judicial do Ruzene Sociedade de Advogados.

Segundo a advogada, o processo costuma formalizar um desgaste que vinha sendo acumulado ao longo de vários anos. Quando as medidas internas deixam de ser suficientes para reorganizar dívidas e renegociar obrigações, a recuperação judicial passa a funcionar como um mecanismo de coordenação entre empresa e credores.

Ela ressalta, porém, que a aprovação do plano representa apenas uma etapa da reestruturação. “A recuperação deixa de ser uma decisão judicial e passa a ser um teste real de viabilidade”, afirma, ao comentar o caso da Coteminas.

Na prática, a sobrevivência das empresas depende da capacidade de recuperar geração de caixa, reorganizar operações e reconstruir a confiança de fornecedores, bancos, investidores e consumidores.

Mesmo companhias com marcas fortes e presença consolidada no mercado enfrentam dificuldades para atravessar períodos prolongados de crédito caro e transformação acelerada dos hábitos de consumo. O pano de fundo das crises recentes se repete em diferentes setores: juros elevados, financiamento mais restrito e necessidade crescente de adaptação em um mercado cada vez mais competitivo.

Fonte: CNN Brasil
Foto: https://www.magnific.com/br/fotos-gratis/vida-morta-do-dia-mundial-da-propriedade-intelectual_152240659.htm

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