Início Negócios Marco Antônio Tristão Jr. comenta como a governança no futebol brasileiro entra em nova fase de profissionalização 

Marco Antônio Tristão Jr. comenta como a governança no futebol brasileiro entra em nova fase de profissionalização 

por Plataforma dos Municípios

O futebol brasileiro vive um dos momentos mais importantes de sua história fora das quatro linhas. Após décadas marcadas por endividamento elevado, instabilidade administrativa e frequentes crises financeiras, os clubes passaram a enfrentar uma crescente demanda por profissionalização da gestão. A combinação entre a expansão das Sociedades Anônimas do Futebol (SAFs), o fortalecimento das práticas de governança corporativa e o debate sobre a implementação do Fair Play Financeiro está acelerando uma transformação que pode redefinir a sustentabilidade econômica do esporte no país.

Nos últimos anos, a gestão dos clubes deixou de ser analisada apenas sob a ótica esportiva e passou a despertar atenção de investidores, patrocinadores, fundos de investimento e instituições financeiras. Em um mercado cada vez mais globalizado, a capacidade de atrair recursos está diretamente ligada à transparência, à qualidade da governança e à previsibilidade financeira das organizações esportivas.

Para Marco Antonio da Rocha Tristão Jr., executivo com ampla experiência em finanças corporativas, governança, compliance e gestão, além de sócio de uma academia de futebol, a tendência é que o futebol brasileiro comece efetivamente  a incorporar práticas que já fazem parte da rotina das grandes organizações empresariais.

Os clubes deixaram de ser avaliados apenas pelos resultados em campo. Hoje, investidores, patrocinadores e torcedores observam também a capacidade de gestão, a disciplina financeira e a transparência na tomada de decisões. Apesar de alguns problemas de governança na primeira onda de SAFs, o futebol está passando por um processo de amadurecimento institucional semelhante ao que ocorreu em diversos setores da economia nas últimas décadas”, afirma.

Fair Play Financeiro ganha força e amplia pressão por responsabilidade fiscal

Entre os temas mais discutidos atualmente está a adoção de mecanismos inspirados no Fair Play Financeiro europeu. Criado pela UEFA para promover equilíbrio econômico entre os clubes, o modelo estabelece regras voltadas à sustentabilidade financeira, limitando gastos incompatíveis com a capacidade de geração de receitas das equipes.

No Brasil, a discussão ganhou força diante do crescimento dos investimentos privados no futebol e da necessidade de evitar que clubes assumam compromissos financeiros acima de sua capacidade de pagamento. A Confederação Brasileira de Futebol (CBF) deu o primeiro passo com a criação do Sistema de Sustentabilidade Financeira (SSF) e da  Agência Nacional de Regulação e Sustentabilidade do Futebol (ANRESF), órgão autônomo responsável pela implementação e gestão do SSF.

Para Tristão, a adoção de mecanismos de controle financeiro tende a beneficiar o setor no longo prazo. “O Fair Play Financeiro não deve ser visto como uma barreira ao crescimento, mas como uma ferramenta de sustentabilidade. O objetivo não é limitar investimentos, e sim criar condições para que os clubes cresçam de forma responsável, reduzindo riscos financeiros que historicamente comprometeram o desenvolvimento do futebol brasileiro”, explica.

A experiência internacional mostra que ambientes mais previsíveis e transparentes tendem a atrair maior volume de investimentos e fortalecer a competitividade das competições.

SAFs aceleram profissionalização da gestão e atraem investidores

A criação da Lei da Sociedade Anônima do Futebol, em 2021, representou um marco para a modernização da gestão esportiva no Brasil. O novo modelo abriu caminho para a entrada de investidores nacionais e internacionais, criando em teoria, estruturas mais alinhadas às práticas de governança corporativa adotadas por empresas de grande porte.

Clubes que aderiram ao modelo passaram a implementar conselhos de administração mais estruturados, processos formais de prestação de contas e mecanismos de controle financeiro mais rigorosos. Além disso, a presença de investidores institucionais aumentou a exigência por indicadores de desempenho, planejamento estratégico e gestão de riscos.

Na avaliação de Tristão, essa mudança contribui para aproximar o futebol brasileiro dos padrões observados nos mercados mais desenvolvidos: “Investidores procuram ambientes com regras claras, previsibilidade e mecanismos de controle. A profissionalização da governança reduz incertezas e aumenta a confiança no setor, criando condições mais favoráveis para captação de recursos e crescimento sustentável”, destaca.

Modelos europeus inspiram nova cultura de gestão no futebol brasileiro

A transformação em curso também é influenciada por experiências internacionais bem-sucedidas. Grandes clubes europeus consolidaram estruturas de governança capazes de equilibrar desempenho esportivo, controle financeiro e geração de valor para seus stakeholders.

Embora os contextos econômicos sejam distintos, diversos especialistas apontam que práticas como planejamento de longo prazo, gestão profissionalizada, transparência financeira e supervisão independente podem contribuir para reduzir vulnerabilidades históricas do futebol brasileiro.

Para Marco Antonio da Rocha Tristão Jr., o desafio não está apenas em copiar modelos internacionais, mas em adaptar boas práticas à realidade brasileira: “A governança eficiente não depende exclusivamente de legislação ou de novos formatos societários. Ela exige cultura organizacional, disciplina na execução e compromisso com a transparência. Os clubes que conseguirem incorporar esses princípios terão maior capacidade de enfrentar ciclos econômicos adversos, atrair investimentos e construir resultados sustentáveis dentro e fora de campo”, conclui.

Governança também começa na base

Enquanto o debate sobre Fair Play Financeiro e SAFs concentra-se no topo da pirâmide, Tristão chama atenção para uma dimensão da governança que raramente entra na conversa: a formação de base. Sócio de uma academia de futebol de formação, ele destaca que a esmagadora maioria dos jovens que passam por categorias de base não chegará ao futebol profissional e que essa realidade impõe uma responsabilidade de gestão que vai além do resultado esportivo.

Sabemos que a grande maioria dos atletas em formação hoje não seguirá carreira no futebol profissional. Esse não é um detalhe estatístico, é o dado central para pensar a gestão da base. Um processo de formação orientado apenas para revelar o próximo talento, esquecendo da formação do cidadão, está com o foco equivocado, uma vez que o compromisso real é preparar esses jovens para a vida dentro e fora do futebol.  Não faltam exemplos de jogadores que, mesmo tendo atingido o sucesso, faliram poucos anos após a aposentadoria por total despreparo para o mundo real”, afirma.

Para ele, essa lógica também é uma questão de governança, ainda que aplicada de forma distinta: “Governar bem uma estrutura de formação significa transparência com as famílias sobre as reais chances de cada atleta, investimento em educação além da técnica, e tratar o desenvolvimento do jovem sem especulação. Essa também é uma forma de sustentabilidade aplicada ao capital humano, não apenas ao financeiro”, conclui.

À medida que o debate sobre Fair Play Financeiro, SAFs e responsabilidade fiscal avança, o futebol brasileiro dá sinais de uma nova etapa de maturidade institucional. Mais do que uma exigência regulatória, a profissionalização da gestão vem se consolidando como um elemento estratégico para garantir competitividade, sustentabilidade e crescimento em um dos setores mais relevantes da economia do esporte.

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