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Moradores de módulos temporários em Porto Alegre relatam insegurança

por Plataforma dos Municípios
Moradores de módulos temporários em Porto Alegre relatam insegurança

Mais de um ano após perderem suas casas na enchente histórica de maio de 2024, moradores de Porto Alegre ainda enfrentam incertezas e dificuldades no cotidiano. A transferência para os módulos temporários instalados no bairro Sarandi, na zona norte da Capital, era vista como um passo rumo à reconstrução. Porém, relatos de invasões, depredação, furtos e ausência de assistência pública transformaram o local em um novo cenário de insegurança.

Entre os atingidos está José Miguel Golebiowski, 57 anos, eletricista, que deixou um centro de acolhimento no final de maio de 2025 para ocupar um dos 80 módulos do programa A Casa é Sua – Calamidade, parceria entre governo estadual e Prefeitura de Porto Alegre. Ele perdeu sua casa e todos os bens durante a enchente. A mudança para o espaço de 27 m² deveria representar alívio — mas a realidade foi outra.

“Quando eu vim para cá, a expectativa era de eu ficar tranquilo, de eu poder sair pra trabalhar tranquilo, e não sair preocupado como eu saio hoje”, diz. Desde então, episódios de furto e vandalismo se tornaram frequentes. “Agora, sempre que eu estou trabalhando eu penso: será que vou voltar e a casa vai estar inteira?”, pergunta.

Estrutura degradada e sensação constante de risco

Os módulos foram entregues com mobiliário completo — cama, beliche, sofá, guarda-roupas, armário de cozinha, fogão, geladeira e banheiro equipado. Hoje, parte disso desapareceu. Na unidade de José Miguel, restam apenas sofá, cama, beliche e guarda-roupas. Em outras casas, só sobrou a estrutura metálica.

“Um dia, logo depois que a Brigada Militar saiu, eu fui trabalhar e, quando voltei, tinham roubado a geladeira e o fogão da minha casa”, relembra. No módulo ao lado, diz ele, a destruição começou assim que o morador deixou o local.

A segurança foi assumida inicialmente pela Brigada Militar, com vigilância 24 horas. Porém, em 20 de outubro, o patrulhamento foi substituído pela Guarda Civil Metropolitana (GCM), que apenas realiza rondas. Moradores chegaram a enviar um abaixo-assinado ao Ministério Público e ao Município pedindo reforço, mas não obtiveram resposta.

“No dia 7 de novembro, eu cheguei em casa do trabalho e tinham roubado todos os fios da elétrica da minha casa”, relata. Ele arcou com a reposição do próprio bolso. O desgaste emocional se soma às perdas materiais. “A sensação é de insegurança, medo. Eu estava com planos de ficar oito meses, um ano aqui no máximo, até ter alguma solução, só que eu não tenho mais o psicológico para ficar”.

Falta de alimentos e assistência social insuficiente

Além da insegurança, moradores denunciam abandono institucional. Fabiana Marques, que vive no módulo I05 com o marido e as duas filhas, afirma que muitas famílias não recebem nenhum tipo de apoio da Prefeitura.

“Tem pessoas passando fome aqui, que batem no meu portão, às vezes, pedindo uma xícara de arroz”, relata. Segundo ela, a entrega das casas veio acompanhada de promessas não cumpridas: “Infelizmente, o dia a dia aqui é de dor, incerteza, tristeza, frustração por prometerem uma coisa e, quando nos tiraram de dentro do milésimo abrigo, a realidade foi completamente diferente”.

O governo do Estado havia divulgado que forneceria kits de alimentos por um ano, via Secretaria de Desenvolvimento Social (Sedes). Em nota, porém, a pasta informou que a entrega dependia de solicitação formal das prefeituras — e “O Município de Porto Alegre não encaminhou manifestação de interesse”. Apenas Canoas recebeu as 1.135 cestas previstas.

“Nós vivemos sempre uma incerteza, sempre pedindo alguma coisa, pedindo para que venham nos ajudar com alimentos, que era direito nosso, uma cesta básica por mês. Sumiram, nunca deram notícia, ninguém sabe”, desabafa Fabiana. “E tem gente que não tem o que comer aqui dentro, por isso a gente acaba se ajudando”.

Sem responsável definido pela gestão dos módulos

A indefinição sobre quem administra os módulos temporários agrava a situação. Documento obtido pelo Sul21, referente a reunião de 21 de novembro entre representantes do DEMHAB e moradores, aponta que o departamento municipal afirma não ser responsável pela gestão da área.

Segundo a diretora do órgão, Patrícia Monaco Schuler, “não compete ao DEMHAB a gestão dos módulos (infraestrutura, segurança, água, energia) nem o atendimento socioassistencial — atribuições da rede de Assistência Social”.

A advogada Bámidele Chalmes, que acompanha as famílias, confirma a confusão: “O Estado passou a parte da habitação e assistência social para a Prefeitura. Mas quem, de fato, administra os módulos?”, questiona.


Fonte: Sul 21
Foto: https://br.freepik.com/fotos-premium/casa-de-madeira-e-chave-na-mao-das-mulheres-seguro-de-investimento-e-compra-de-casa-hipoteca-conce-imovel_245538510.htm

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