Início Cotidiano Torcedores tomam o centro do Rio de Janeiro para celebrar título do Flamengo

Torcedores tomam o centro do Rio de Janeiro para celebrar título do Flamengo

por Plataforma dos Municípios
Torcedores tomam o centro do Rio de Janeiro para celebrar título do Flamengo

O Flamengo parou o Centro do Rio de Janeiro neste domingo (30). Centenas de milhares de torcedores ocuparam as principais vias da região para celebrar o quarto título da Libertadores, conquistado no sábado (29), no Estádio Monumental de Lima. A festa, que reuniu famílias, amigos e torcedores de diferentes regiões do estado, reforçou a força mobilizadora do futebol na vida social e emocional dos brasileiros.

A vibração coletiva trouxe novamente à memória os versos de Moraes Moreira, que em 1983 já sintetizava o sentimento da torcida ao cantar que “a cada gol do Flamengo eu me sentia um vencedor”. Décadas depois, a mesma sensação tomou conta dos rubro-negros quando o zagueiro Danilo marcou de cabeça o gol decisivo da partida.

Dos alto-falantes improvisados aos gritos que ecoavam entre prédios históricos, a comemoração transformou as ruas Primeiro de Março e Presidente Antônio Carlos em um verdadeiro mar vermelho e preto. Do alto de um caminhão do Corpo de Bombeiros, jogadores e comissão técnica acenaram para a multidão que se estendia por quarteirões.

A celebração como alívio e motivação

Entre os torcedores que foram cedo ao Centro do Rio estavam Eduardo Ferreira Henrique e Valéria Nunes Domingos, moradores do Cosme Velho, na zona sul. Para eles, o fim de semana teve um significado ainda mais especial.

“Ontem, a gente teve duas vitórias. Minha esposa estava com suspeita de câncer, deu resultado negativo; e a vitória do Mengão. Foi um dia maravilhoso, sensacional! Comemoração dupla”, celebrou Eduardo.

Valéria concordou que o momento esportivo funciona como uma válvula de escape e reforçou a união que vê no futebol. Eduardo completou: “Na hora da euforia, todo mundo se abraça, todo mundo demonstra felicidade. Esse negócio de violência já foi do passado, agora a galera toda se une, todo mundo junto”.

O casal representa uma parcela da multidão que enxerga na paixão pelo clube uma força para enfrentar desafios do cotidiano. Para muitos, festejar o título não é apenas sobre o resultado em campo, mas também sobre ressignificar emoções.

Torcedores de longe: do interior ao litoral, todos no mesmo coro

A movimentação rubro-negra também trouxe ao Centro moradores de cidades distantes da capital. De São Gonçalo, a cerca de 30 quilômetros dali, Andressa Vitória saiu de casa cedo para garantir um bom lugar na festa. Chegou por volta das 9h, acompanhada da sogra, Rosane Rodrigues.

A comemoração, para ela, veio como um respiro. “Ainda mais para quem tem uma crise de ansiedade”, contou. Ela explicou que, para muitos, a experiência coletiva proporciona vínculos verdadeiros. “Se você estiver vendo um jogo no bar, parece que todo mundo se conhece, começa a trocar assunto sobre isso. Você acaba fazendo uma amizade porque sempre vê um jogo naquele lugar, acaba se tornando uma família”.

Também havia torcedores vindos do interior, como Eusébio Carlos André, morador de Resende, no sul do estado. Ele se programou para estar no Rio independentemente do resultado, e o título completou o plano. Segundo ele, o futebol melhora o humor das famílias. “O Flamengo ganhando deixa o pai de família feliz, todo mundo feliz. O cara feliz no trabalho, feliz no amor, feliz com o filho”, afirmou.

Eusébio destacou ainda o caráter democrático das arquibancadas: “Todas as torcidas conseguem reunir o pobre com o rico, o cara que ganha R$ 50 mil junto com o que ganha R$ 80 por dia. O futebol une tudo, todas as raças e etnias”.

O futebol como fenômeno cultural

A relação entre o Flamengo e sua torcida ajuda a ilustrar o que diversos estudiosos já identificaram como um fenômeno social no Brasil. O professor aposentado Mauricio Murad, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), analisa essa dinâmica no artigo Futebol no Brasil: reflexões sociológicas. Para ele, o esporte é um dos maiores fenômenos da cultura de massa do país.

“Mobiliza paixões coletivas, expressa os fundamentos antropológicos de nossa formação e representa o nosso sistema simbólico, como poucos acontecimentos da estrutura social”, escreve.

Murad aponta ainda que o poder do futebol ultrapassa o campo profissional. Seu significado simbólico, diz ele, atravessa camadas sociais, idades, etnias e gêneros. Em sua análise, o alcance do futebol chega a superar até o carnaval, já que sua energia percorre o país durante todo o ano. “Costuma se dizer que o reinado do Rei Momo dura quatro dias e que o reinado do Rei Pelé dura o ano todo”.

Tradição que atravessa gerações

Entre os milhares de rubro-negros reunidos na comemoração estavam Maurício Braz e Flávia Torres, moradores de Magé, que levaram ao evento o pequeno João Vicente, de apenas 9 meses. No colo do pai, o bebê vestia uma camisa especial.

“É algo que passa de pai para filho. Igual aqui, essa camisa eu guardo desde novembro de 1995”, contou Maurício, ao mostrar a blusa no corpo do filho. “Estou passando para ele aqui hoje com o tetra da Libertadores”.

A transmissão da paixão pela família se repetiu em outros pontos do Centro, como no caso de Hélio Marcos Ferreira Chaves. Ele lembrou que, nas comemorações de 2019 e 2022, estava acompanhado dos filhos. Desta vez, eles não puderam ir, mas ele garantiu: “Mas quarta-feira ele estará comigo”, disse, sobre o próximo jogo do time, contra o Ceará, pelo Campeonato Brasileiro.

Se o sambista João Nogueira dizia que “quando o Mengo perde eu não quero almoçar, eu não quero jantar”, o fim de semana provou o oposto. A Nação almoçou, jantou e celebrou sem hora para acabar.

Fonte: Agência Brasil
Foto: https://br.freepik.com/imagem-ia-premium/uma-multidao-de-pessoas-em-uma-multidao-com-uma-camisa-vermelha_330473822.htm

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