João Pessoa: projeto musical resgata memória de idosos

A cidade João Pessoa (PB) lançou um projeto musical que resgata memória de idosos da região. Ele é viabilizado por meio do setor de Geriatria do Universitário Lauro Wanderley (HULW-UFPB), da Universidade Federal da Paraíba e vinculado à Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh).

Denominado de “Musicalmente”, a proposta é ajudar os idosos a recordarem tantos fatos mais recentes como do passado através de canções. Sobre isso a integrante da turma, a senhora Anatália Carneiro, de 86 anos, relatou ao site de notícias ClickPB:

“Lembro muito que minha mãe enfrentou os cangaceiros. Todo mundo fugiu com medo, mas ela não”.

Dona Anatália possui problemas de memória. Mas assim que começou as sessões a participar das sessões musicais, logo passou a relembrar fatos de sua juventude, por exemplo.

O projeto ressalta que os pacientes são tratados em sessões individuais. Com isso, o foco é justamente na história de vida de cada um.

No primeiro encontro com Dona Anatália, ela foi mexendo a cabeça e depois batendo os pés acompanhando o ritmo da música. Em seguida, levantou e começou a dançar ao ouvir canções que remetem à sua vida, como “Xote das Meninas”, de Luiz Gonzaga. Foi este sucesso que a fez a levantar. Além do repertório do cantor Sivuca.

Sessões no auditório

O grupo do projeto “Musicalmente” executa os ritmos no auditório do Hospital Universitário.

Instrumentos, como flauta, triângulo e trombone são inseridos às vozes e dão a temática que faz os idosos recordarem fatos de sua infância. Memórias alegres vêm à tona. Apenas estavam adormecidas em algum ponto do cérebro, muitas vezes causadas por um tipo de demência.

Dona Anatália complementa ao ClickPB:

“Ave Maria, achei tudo maravilhoso aqui. Nunca pensei que na velhice viveria isso tudo de novo. Me alegrei muito. Lembrei muito de minha terra (São Gabriel, interior da Bahia). Lembrei de quando meu pai fazia essas brincadeiras todas. Era uma festa! Tinha pamonha, milho assado, era uma alegria. Juntava tanta gente dentro de casa”.

Sua filha, Creusa Carneiro é só elogios para a equipe do “Musicalmente” e se diz surpresa da proposta ter vindo justamente do setor de medicina da UFPB, por considerar a área um tanto fechada a estes projetos. Ela conta que sua família vive na capital da Paraíba desde os anos 1980. E que graças ao projeto, hoje sua mãe consegue realizar mais as tarefas diárias sozinha e que a idosa está mais tranquila e que melhorou sua autoestima.

Sobre demências

O foco do “Musicalmente” é trabalhar a música autobiográfica de cada paciente. Isso é uma forma de tratar terapia alternativa que se baseia em sintomas neurocomportamentais ligadas a tipos de demências.

O público-alvo do projeto são pacientes que são atendidos no Ambulatório de Memória do HULW, além de pessoas com diagnóstico de demência que estejam hospitalizados na mesma instituição. A coordenação do “Musicalmente” fica a cargo da geriatra Manuella de Sousa Toledo.

Inspiração

O projeto foi desenvolvido com base no que já acontecia em outros países, como Espanha, com o “Música para Despertar”, e nos Estados Unidos, com o “Music and Memory”.

Envelhecimento

O ato de envelhecer pode ser um fator de risco, de acordo com a geriatra. Nesta etapa da vida a ocorrência de síndromes demenciais são muito comuns.

Ela afirma ao portal de notícias:

“Temos mais de 250 demências no mundo, sendo 60% Alzheimer. É importante investigar todo esquecimento, pois não é normal de idade nenhuma esquecer. Então, é importante investigar e diagnosticar”.

E conclui que o projeto “Musicalmente” é muito importante para este resgate aurobiográfico de fatos do passado e do presente mais recente. Pois, em sua opinião, cada memória pode estar associada a uma música. Além disso, a proposta aproxima os cuidadores dos idosos, como uma espécie de interação social. O projeto também visa que os pacientes identifiquem períodos do ano por meio da música.

Expectativas

Segundo a interna de Medicina do HULW, Nathalia Cristina Immisch:

“A música autobiográfica é uma música que tem um significado especial na vida de cada paciente. Então a gente busca conhecer melhor o paciente, montar um repertório individualizado, personalizado, para que tenha os efeitos desejados. A gente espera efeitos no comportamento, no humor e também em sintomas depressivos ou ansiosos, além de reduzir a apatia e melhorar a relação entre o paciente e o próprio cuidador”.

O projeto foi iniciado em março deste ano, onde os familiares dos pacientes passam por uma entrevista para construir o perfil dessas pessoas que terão o auxílio do “Musicalmente”.

O planejamento envolve estudantes de Fisioterapia, Música, Medicina, Psicologia e Terapia Ocupacional.

As sessões são filmadas pelos estudantes no intuito de acompanhar melhor a evolução de cada paciente. Os idosos são examinados e questionados se conseguiram relembrar fatos de sua vida e quais emoções estas lhe causaram.

Visitas

O projeto também prevê visitas aos pacientes hospitalizados em estado geral, classificados de bom a regular. Com isso, a proposta cria um ambiente mais acolhedor, tirando a tensão do fato deles estarem internados.

O “Musicalmente” pretende com estas intervenções reduzir os sintomas neurocomportamentais, além de proporcionar uma melhor qualidade de vida aos idosos e dos cuidadores. Estes também acabam sendo impactados pelas síndromes demenciais dos enfermos que ajudam.

Fonte: Portal ClickPB

*Foto: Reprodução / HULW-UFPB