Jornalista Sérgio Augusto cria guia de cinema de modo nostálgico

Quem se depara com os textos reunidos no livro “Vai começar a sessão” (Editora Objetiva), deve enxergar por meio da leitura o tom nostálgico do jornalista e crítico sobre cinema, Sérgio Augusto.

Conversar com ele é a chance de voltar ao passado, desde o início de suas atividades como jornalistas nos anos 1960. O profissional já passou pelas redações dos principais veículos de comunicação do país, como: “Tribuna da Imprensa”, “Correio da Manhã”, “Jornal do Brasil” e “O Pasquim”.

Guia de cinema nostálgico

Sérgio Augusto relembra fatos de sua carreira que presenciou ao longo de 50 anos de profissão como se eles tivessem acontecido ontem. Entre as memórias, estão detalhes do circuito de cinema do Rio e de como os cinéfilos de sua época viviam, além das recordações de trilhas sonoras dos filmes de sua juventude.

Assim como em sua obra recém-lançada, as paredes do apartamento do crítico de cinema, no bairro da Lagoa, registram os seus principais momentos no jornalismo e os encontros que realizou nesta trajetória. Sua carreira é pontuada, por exemplo, por um tête à tête com a atriz Sharon Tate de biquíni nos anos 1960, ou ainda por um desenho de Francis Ford Coppola realizado no dia em que o cineasta assistiu ao desfile das escolas de samba do Rio em sua residência. Sobre isso, ele declarou ao jornal O Globo:

“Você acaba sempre festejando e celebrando outras épocas. Sempre que lembro de algo que testemunhei, penso que, se tivesse nascido um ou dois anos depois, teria perdido.”

Grandes momentos do cinema

Os textos que constam no guia “Vai começar a sessão” foram publicados originalmente na imprensa, entre 2000 e 2018. No livro é possível recordar caminhos de grandes nomes do setor, entre diretores de cinema, atores e críticos. Muitos deles, Sérgio conheceu pessoalmente, tanto pela profissão ou vida pessoal.

Ao longo das 44 páginas, a ideia não é compor uma obra de memórias. Porém, não dá para negar que os fatos do passado renderam grandes histórias. Daquele tempo em que o autor bebia chope com a verdadeira classe artística do Cinema Novo no Bar da Líder, junto do amigo David Neves (cineasta de longas, como “Lucia McCartney”). Além disso, também cicenoreou um já renomado François Truffaut em sua passagem pelo Rio, também nos anos 60.

Nesta mesma época, o jornalista se tornou testemunha privilegiada de tempos áureos do cinema brasileiro, convivendo de perto com os diretores Cacá Diegues, Glauber Rocha e Walter Lima Júnior. A discussão de fatos artísticos rolava solta entre os amigos, nas sessões do Clube de Cinema do MAM:

“Aqueles não foram os melhores anos de minha vida, apenas, mas também de todos os citados.”

Não gosta de séries

Ao contrário dos amigos cineastas, Sérgio optou pelo caminho da escrita e falar sobre cinema. Para ele, este guia também é uma homenagem à atividade de crítico da área, em que pode falar sobre seus ídolos da juventude, como Antonio Moniz Vianna e Ely Azeredo:

“Antigamente as pessoas se guiavam pela crítica. Hoje, há um desinteresse por ela e os textos estão superficiais, com ideias prontas. Com a internet, todo mundo pode ser crítico.”

Atualmente, o critico revela que não tem paciência para séries, além de games:

“Também não tenho mais saco de ir ao cinema. Vejo muito filme na casa do Daniel Filho, que sabe das novidades. Cinema hoje em dia é das minhas… sei lá, “diversões”. Não é mais minha atividade favorita, hoje leio muito mais do que vejo filmes.”

Cinéfilos de hoje

Sérgio diz ainda não entender a atual linguagem dos cinéfilos. Para ele, são compulsivos no consumo de filmes e séries. Como precisa lidar com eles, conta com o auxílio de interlocutores mais jovens, como o crítico Claudio Leal, de 37 anos, “uma criança para mim, mas que sabe tudo, dispensa rodapé”.

“Eu não entendo esse pessoal de hoje que vê tanto filme, maratona de séries… Esse pessoal não namora?”

Ele ainda explica este seu comportamento meio “arredio” com o cinema atual:

“Custei a decorar o (nome) do turco Nuri Bilge Ceylan, cujos filmes adoro, mas não me atrevo, nem em conversa com amigos cinéfilos, a mencionar Apichatpong Weerasethakui”.

A grafia correta, de acordo com o entrevistador é: Weerasethakul.

E finaliza a entrevista, afirmando:

“Foi-se o tempo em que o máximo de dificuldade que a gente tinha era pronunciar corretamente os nomes de Joseph Mankiewicz e Budd Boetticher, embora muitos ainda não tenham aprendido que Coppola é proparoxítono”.

Fonte: O Globo

*Foto: Divulgação / Ana Branco – Agência O Globo