Mostra de Tiradentes: mulheres realizam filmes preciosos

Entre as mulheres que exibem produções na Mostra de Tiradentes, estão as cineastas Helena Ignez e Dácia Ibiapina

A Mostra de Tiradentes está em seus últimos dias e o protagonismo feminino das produções em competição chama a atenção. É o caso de dois filmes políticos, diferentes entre si. O primeiro é da diretora brasiliense Dácia Ibiapina, com “Cadê Edson?”, documentário sobre os movimentos de moradia transmitidos pela figura de Edson Ferreira da Silva, que é o coordenador dessas ocupações. Na última quinta-feira (30), foi a fez da atriz e cineasta Helena Ignez apresentar ao público do festival o surpreendente “Fakir”.

Mostra de Tiradentes – mulheres entre os destaques

Em “Cadê Edson?”, a produção se vale da ocupação pacífica e a desocupação do antigo hotel Torre Palace, em Brasília, com imagens captadas pela própria polícia da desocupação. Os drones registram os helicópteros com membros da polícia descendo sobre o prédio. E também são os próprios policiais que filmam a ação do local.

Ibiapina utilizou as imagens, nada pacíficas, e montou com pessoas de verde-amarelo, utilizando camisas ou bandeiras, que aplaudiam os policiais. O efeito de montagem é um pouco abusivo, pois essas pessoas não estavam ali quando se deu o fato, em 1916, porém o espírito era esse. O filme não se inicia e nem se encerra aí. Em suma: a diretora consegue impactar o espectador ao registrar o modo como o Estado lida com os despossuídos e ainda causa uma percepção de que o Brasil parece não ter saído do lugar, desde a revolta de Canudos até os tempos atuais. A produção de Ibiapina compete na mostra Aurora.

No caso de “Fakir”, de Helena Ignez, chega forte à Mostra de Tiradentes, em competição na mostra Olhos Livres. O filme não é bem um documentário, antes ainda de um filme-ensaio que inicia uma busca etimológica, que em árabe, significa “pobre”. A partir daí, o público é induzido a um mundo de faquirismo, em que décadas atrás foi uma espécie de espetáculo altamente popular (mais precisamente entre os anos 1950 e 1960) e, a rigor, é uma derivação do circo, com uma abordagem muito rica.

A moda dos faquires e faquirezas fez da atividade um tipo de esporte radical, pautado em uma disciplina rígida do ponto de vista corporal, que levava a uma extrema resistência em face da fome e da dor.

Brasil se destaca nesta atividade

O Brasil se destacou nessas atividades, com vários recordes conquistados e consagrados pela manchete de um jornal daquele tempo, como o campeão mundial da fome. Pode haver uma ironia nesta afirmação, mas o fato é que nossos faquires, com o famoso Silki à frente, destruíram os recordes mundiais anteriores, em que os franceses foram os grandes concorrentes e estipularam uma supremacia incontestável neste ramo.

Helena determina no filme outras atividades em que o preconceito e a perseguição policial se revezavam, na ideia de infernizar a vida de nudistas, lutadoras de luta livre, cantoras e criadoras de cobras. Estas mulheres, sobretudo, pobres, e sempre vítimas de violências, como foi o caso de uma faquireza que foi assassinada pelo marido, o faquir Lookan, por suspeitar que ela o traiu.

Tanto como em “Cadê Edson?”, quanto em “Fakir”, as duas cineastas mostram um fecjo memorável para a Mostra de Tiradentes, que desde o começo afirmou a paradoxal vitalidade do cinema brasileiro de hoje, que é capaz de produzir lindos filmes, porém enfrenta desafios enormes para conseguirem realizá-los, e ainda serem exibidos com regularidade.

Fonte: Folha de S. Paulo

*Foto: Divulgação / Leo Lara – Universo Produção