Protagonismo feminino impera no Festival do Rio

O Festival do Rio deste ano tem como mote o protagonismo feminino na mostra Première Brasil do Festival do Rio, principalmente no último sábado (14). O tom deste dia de programação foi marcado por dois longas-metragens de ficção e um documental, exibidos no Estação Net Gávea. Com enredos focados em mulheres fortes de origem popular, o filme “Três verões”, de Sandra Kogut, estrelado por Regina Casé voltou a chamar atenção por seu teor de trabalhadoras anônimas que presta serviços em casas da elite brasileira.

“Três verões” narra três momentos no tempo (os verões do título), em que acontecem reflexos dos escândalos de corrupção recentes na residência de uma família endinheirada. A diferença é que o enredo é mostrado pelo ponto de vista das serviçais.

Regina Casé vive Madá, caseira de uma residência e que mais uma vez ela dá o contraste de empregados nordestinos migrados para o Sudeste, como sua atuação em “Que horas elas volta?”, como a doméstica Val (2015), ou atualmente como a Lourdes da novela “Amor de mãe”.

Diferente de Val que era submissa, Madá é quem manda na casa de Edgar (Otáveio Muller) e Marta (Gisele Fróes). Com tom afetivo, ela ocupa todos os espaços deixados pela família em frangalhos após uma investigação policial. Além de Casé possuir um magnetismo na telona, provando de seu protagonismo feminino. Em declaração ao O Globo, a atriz afirmou:

“Estamos aqui celebrando termos feito um filme, o que é um feito miraculoso. Estamos em um festival, no Rio de Janeiro, que é outro milagre. Quando acabar a projeção temos que nos abraçar.”

Protagonismo feminino com “pureza”

Outro destaque da mostra nacional ficou a cargo do filme “Pureza”, do diretor Renato Barbieri (de “Cora Coralina – Todas as vidas”). A produção de ficção exala o protagonismo feminino vivido pela atriz Dira Paes, na pele da maranhense Pureza Lopes Loyola, como peça essencial na contra o trabalho escravo no Brasil. Ela encarna uma mulher humilde em busca do filho desaparecido e começa uma força-tarefa pelos direitos humanos dentro do governo federal.

Barbieri esteve presente à sessão e explicou momentos do filme, ressaltando que o longa reflete o lado ativista de Dira, que também é uma das fundadoras da ONG Movimento Humanos Direitos, focada justamente no combate ao trabalho escravo no país.

Além disso, “Pureza” carrega bastante no enredo com ares de folhetim, o que foi comprovado pelas lágrimas do público ao final da exibição no Festival do Rio.

Cárcere como cenário

Fechando a trinca de protagonismo feminino do último dia 14, no Festival no Rio, está o documentário “Flores do cárcere”, da dupla Paulo Caldas e Bárbara Cunha. A narrativa giram em torno de ex-detentas da Cadeia Feminina de Santos, que reveem seus caminhos de vida e encaram o desafio de se reintegrar na sociedade. Os documentaristas criam uma espécie de antropologia emocional de suas protagonistas, dando voz à subjetividade de cada uma delas. Sobre esta questão, o produtor do filme, Paulo Roberto Schmidt afirmou antes da exibição no festival:

“A gente precisa de humanidade para construir um país de que possamos nos orgulhar.”

Livro

“Flores do cárcere” foi baseado no material da escritora Flávia Ribeiro de Castro, que durante 15 anos frequentou a penitenciária e contou esta experiência num livro homônimo. Além disso, neste período ela registrou em vídeo o dia a dia das presidiárias. O documentário confronta esses relatos com depoimentos atuais registrados na cadeia, hoje desativada, que se transformou em ruínas, tomadas por plantas. Neste contexto, o filme foge da habitual crueza que os documentários exalam.

Os relatos escolhidos pelos diretores revelam as particularidades da experiência feminina em uma penitenciária. A começar pelos que crimes que as conduzem até este local, baseados principalmente em pequenos furos até o envolvimento com o tráfico por amor mais maridos e namorados. Também é curioso ver neste cenário uma delicadeza, que vem das paredes decoradas com desenhos e pelas rodas de dança coletiva no pátio da cadeia. Em um dos depoimentos que acarretam neste protagonismo feminino, uma ex-detenta afirma que “a mente pode ser livre mesmo quando o corpo está confinado a uma prisão”.

Fonte: O Globo

*Foto: Divulgação