“Hoje os bancos querem conversar”, diz Ricardo K sobre as usinas sucroalcooleiras

A economia brasileira tem dados sinais de recuperação no setor doméstico, sobretudo no caso do etanol, com a ajuda da queda dos juros. No entanto, as usinas sucroalcooleiras que já carregavam antigas dívidas, com altos gastos, ainda enfrentarão dificuldades para resolver esses impasses e, consequentemente, estas ações podem resultar em mais pedidos de recuperação judicial.

Essa é a análise feita pelo presidente da consultoria RK Partners, Ricardo Knoepfelmacher, conhecido no meio financeiro como Ricardo K. Para ele, pelo menos mais dois pedidos de recuperação no curto prazo devem acontecer ainda e não descarta a possibilidade de mais uma dúzia de unidades optarem pelo mesmo caminho para este primeiro trimestre de 2020.

O assessor financeiro, que participou no final de 2019 de um evento no escritório Santos Neto Advogados, na cidade de São Paulo, afirma que só no ano passado 23 usinas entraram em recuperação judicial. A este índice juntou-se o pedido da Atvos, braço do grupo Odebrecht, que possui nove unidades. Ao todo, como noticiou o jornal Valor Econômico à época, foram 93 usinas.

Situação das usinas brasileiras

As companhias que enxergam na venda de ativos uma solução de curto prazo, Knoepfelmacher identifica que existe de fato algum potencial para o valor das usinas. Porém, ainda limitado. Já em relação ao período de expansão do segmento, anos atrás, o assessor não vê uma recuperação do valor desses ativos. Na ocasião, as operações de aquisição eram de R$ 100 por tonelada de cana-de-açúcar de capacidade instalada na indústria.

Ele revela que este tempo acabou, pois negociações mais recentes de usinas conhecidas como “saudáveis” atingiram fechamento entre US$ 70,00 e US$ 80,00 por tonelada de cana. No caso das companhias em dificuldades, o valor das operações pode cair para entre US$ 10,00 e US$ 15,00. Sobre isso, Ricardo K afirma:

“Depende se o canavial está muito depauperado, se a usina é muito antiga… de uma série de questões.”

Portanto, este declínio não acontece apenas em função da depreciação das usinas sucroalcooleiras, e sim também em decorrência da abundância de ativos em promoção, em um período de poucos investidores interessados.

Agronegócio

Este é caso do fundo americano Amerra, que fez alguns aportes em usinas brasileiras há cerca de três anos. Atualmente, o cenário anima a empresa, que possui R$ 700 milhões em ativos no agronegócio em geral no Brasil.

Em declaração ao Valor Econômico, durante o mesmo evento de advogados do ano passado, a diretora jurídica do Amerra, Ana Paula Gambogi, afirmou que o fundo estava estudando mais de um caso de usinas que iriam à leilão dentro de processos de recuperação judicial.

“Temos investimentos sendo mapeados (no agronegócio) para os próximos dois anos e eles incluem oportunidades no segmento sucroalcooleiro.”

Ela ainda notou que os preços de um ativo poderiam oscilar muito de caso para caso. Porém, mesmo resistido pela maioria dos usineiros nas negociações: “muitas vezes a decisão não é mais dele”.

E ainda disse que poderia variar de “US$ 15,00 a US$ 60,00” por tonelada de cana de capacidade. Já em relação às negociações com bancos sobre as condições das dívidas existentes, Knoepfelmacher, que é assessor de várias companhias do segmento, como a Atvos, se mostrou mais otimista na ocasião.

“Hoje os bancos querem conversar. Mas está começando agora, principalmente com as usinas melhores e maiores”.

Mas Ricardo advertiu também que as usinas em dificuldades necessitam identificar o momento exato de entrar em recuperação judicial para que assim não percam o acesso a um crédito capaz de financiar o capital de giro, que normalmente é alto neste setor, e defende:

“O melhor momento de entrar é no início da safra, quando há geração de caixa”.

Em contrapartida, ele diz que este panorama não quer dizer que o segmento em sua totalidade passaria por mais crises.

“O setor de açúcar e álcool passou por um ciclo muito ruim e acreditamos que as coisas serão bem melhores daqui para frente”.

Fonte: Valor Econômico

*Foto: Divulgação