Setor sucroalcooleiro sofre queda na pandemia

Por conta da pandemia de Covid-19, o setor sucroalcooleiro está entre os ramos de atividade bastante prejudicados no Brasil. Um quarto das usinas de açúcar e álcool em operação no país corre o risco de fechar as portas até final de 2020. A afirmação vem de especialistas entrevistados pelo jornal O Estado de S. Paulo.

Setor sucroalcooleiro na pandemia

De acordo com o periódico, sem o capital de giro necessário para quitar as contas de curto prazo, parte dessas companhias tem sido prejudicada pela forte queda de demanda pelo combustível.

O agravante pior aconteceu com o derretimento do preço do petróleo. Sobre isso, o sócio da consultora Datagro, Plínio Nastari, afirmou que são dois cenários: a queda e em seguida os preços.

Atualmente, há aproximadamente 350 usinas sucroalcooleiras em operação em território nacional. Com isso, o setor presenciou as cotações do álcool recuarem de R$ 2 para R$ 1,30 o litro (valor líquido), no mês passado, além da demanda despencar mais de 50%, conforme dados revelados pela Unica (União da Indústria da Cana-de-açúcar).

Armazenamento de etanol

Hoje, grupos com maior capital de giro conseguem ter fôlego para armazenar sua produção de etanol e ainda alterar o mix da indústria, ou seja, produzir mais açúcar, para enfrentar o momento mais agudo da crise em meio à pandemia.

Em contrapartida, não se pode dizer o mesmo de cerca de uma centena de unidades produtoras, pois elas não têm condições de estocar etanol e acabam negociando o combustível a preços mais baixos e também não contam com uma boa saúde financeira para aguentar os próximos meses, como explica o diretor de agronegócios do Itaú BBA, Pedro Fernandes:

“Um quarto das empresas do setor vai passar por muita pressão para garantir sua sobrevivência.”

Região Centro-Sul

Na região Centro-Sul (Centro-Oeste, Sudeste e Sul), onde existe a maior concentração parte da produção do país, a moagem de cana começou em abril.

No entanto, há receios se muitas empresas terão recursos para continuar no setor alcooleiro. Ainda no mês de abril, o grupo Adecoagro, que possui três usinas, duas localizadas no Mato Grosso do Sul e uma em Minas Gerais, anunciou a seus colaboradores que iria suspender os contratos de parte deles no sul-matogrossense.

O cenário é mais delicado ainda para usinas que operam apenas como destilarias. Segundo o Estadão, das 267 unidades produtoras do Centro-Sul, 80 usinas só produzem etanol. Já em relação ao total de cana colhida no Brasil em 2019/20, em torno de 35% foram para a produção de açúcar, explicou o diretor da Unica, Antônio de Padua Rodrigues. Para 2020, a fatia poderá atingir 45%.

Receita

Com uma receita em torno de R$ 100 bilhões, o setor sucroalcooleiro diminuiu nos últimos anos seu endividamento, chegando a quase R$ 90 bilhões.

A maior parte dessas dívidas vem de um grande grupo de usinas. No país, existem 104 unidades produtoras em recuperação judicial, sendo que 81 delas localizadas no Centro-Sul, afirma a Unica.

Durante um evento no escritório Santos Neto Advogados, em São Paulo, no fim do ano passado, o presidente da consultoria RK Partners, Ricardo Knoepfelmacher, mais como Ricardo K., já havia afirmado que em 2019 23 usinas entraram em recuperação judicial.

Ao voltar um pouco mais no tempo, mais precisamente em 2005, 95 usinas foram fechadas nesta região do Brasil. E com as incertezas geradas pela pandemia de coronavírus, boa parte das empresas do setor que já estão em dificuldades financeiras devem seguir pelo mesmo caminho.

Auxílio do governo

O setor sucroalcooleiro não obteve do governo a ajuda esperada a fim de desafogar as usinas produtoras de etanol.

Na ocasião, as usinas solicitaram uma linha de financiamento para estocagem de etanol, além do aumento da Cide (tributo cobrado sobre a gasolina vendida) para R$ 0,40 o litro e a suspensão temporária da cobrança de PIS e Cofins sobre o etanol hidratado, que era de R$ 0,24 por litro.

Fonte: O Estado de S. Paulo

*Foto: Divulgação