Mulheres de Salvador desenvolvem capacete para negros

Baianas criam o protótipo de ciclismo especialmente por não se sentirem representadas pelos formatos que o mercado traz

Que o uso do capacete de ciclismo é muito importante para a segurança de seus condutores, já sabemos. Porém, na prática, não é bem assim que funciona. Fato é que devido ao tamanho e formato presentes no mercado, nem todos conseguem usá-lo. É o caso das pessoas negras que possuem cabelos crespos, com tranças ou dreads. Eles não encontram o tamanho adequado deste acessório que caibam em suas cabeças.

Com isso, uma empresa gerida por mulheres de Salvador (BA) encontrou a solução para esta questão que é um problema para muitos. O capacete criado por elas deve chegar em breve ao mercado e atender esta grande demanda.

Em declaração à Folha de S. Paulo, Lívia Suarez, da La Frida Bikes, que está por trás da criação do capacete de ciclismo, disse:

“Observamos que todos os produtos de bike, sejam roupas ou acessórios, são pensados para pessoas brancas, de cabelos lisos e magras. E esse era um dos fatores que fazia as pessoas negras não usarem capacete. Ele não é adequado”.

Ela afirma que a iniciativa se baseou em cinco fatores essenciais para dar andamento ao projeto:

  1. Segurança;
  2. Formato adequado;
  3. Proteção do Cabelo;
  4. Estilo;
  5. Identidade.

Design afrofuturista

O Forblacks (nome dado ao item de segurança) possui um design afrofuturista. Além disso, tem uma viseira magnética e, principalmente, formato maior do que os encontrados no marcado. Também tem uma abertura no topo, que permite que o cabelo afro fique à mostra.

A equipe de desenvolvedoras também se preocupou além com o quesito saúde dos fios de cabelo. Suarez afirma que a espuma de capacetes comuns acaba por danificar as madeixas de pessoas negras.

Em virtude disso foi utilizada uma esponja, a Nudred, que já é usada parta enrolar e manter o cuidado dos cabelos crespos.  

Evento em Dublin

A primeira vez que o protótipo da La Frida Bikes foi apresentado foi durante o Velocity. Este é um evento que conecta a indústria e organizações de bikes pelo mundo afora. O encontro aconteceu no fim de junho, em Dublin, na Irlanda.

Mulheres de Salvador desenvolvem capacete para negros

A criação e desenvolvimento do Forblacks foi realizado todo no Brasil. A equipe por trás do projeto é 100% composta por negras e baianas. Suarez ainda ressalta que a ideia é produzir o capacete totalmente aqui no país, pois assim a liberdade criativa se mantém preservada.

Além disso, ao desenhar o protótipo, foi notada pelas mulheres que os padrões da ABNT não atendiam a demanda de formato de cabeças de pessoas negras. Com isso, foi enviado à entidade propostas, além de testes no intuito de que consigam uma autorização para iniciar a produção do capacete. Por enquanto, a iniciativa se encontra em análise.

Parcerias e a organização

Atualmente, a empresa busca apoio de parceiros para expandir a distribuição dentro e fora do Brasil. Elas pretendem começar a fabricação do protótipo de segurança no próximo mês.

De acordo com suas representantes, a La Frida Bikes atua como um espaço feminista na capital da Bahia. O foco é pensar em estratégias para pessoas negras e que vivem em regiões periféricas serem inclusas na mobilidade em bicicleta.

Sobre isso, a companhia possui em seu portfólio o projeto “Preta, Vem de Bike”. A iniciativa ensina a mulheres negras noções básicas de como andar de bicicleta e também de sua mecânica. A proposta já atendeu 400 mulheres e se difundiu pelo Recôncavo baiano e São Paulo. Além de ter sido premiado como um dos projetos sociais de grande impacto a nível global, pelo Frida The Young Feminist Fund.